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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ela

A bronca, hoje, é comigo. Parece que tirei férias de mim mesma e, depois, perdi a chave para voltar à origem. Claro que, inicialmente, eu talvez não quisesse, ou não tivesse certeza se queria voltar á origem, mas devia ter previsto que, cedo ou tarde, eu ia sentir falta do lugar onde punha meus chinelos e pijama da alma.

A bronca, hoje, é não saber bem onde foi que me deixei, ter algumas certezas, mas não todas e não saber bem como acessá-las, as certezas.

A bronca é saber que a maioria está no mesmo barco, mas cada um resolve de um jeito e a bronca de achar que todos conseguem resolver melhor do que eu.

domingo, 22 de março de 2009

As diferentes versões para o sumiço

Aos que acharam que Lóri tinha mordido a maçã errada e tinha ficado como a moça do cartaz...

... vimos anunciar que foi apenas uma reviravolta, que começou aqui mesmo junto ao mar e continuou no meio do oceano, lá onde o vento faz a curva, nas ilhas de Atlântida, terra de magia. Estava ela bem no centro da Capital a tentar entender o falar tão castiço do lugar...



... e a confabular com a maioria demográfica (?) que aliás é muito simpática e tão "requinha".


Mas, sempre há mais de uma versão para o mesmo fato. Há quem diga que não existe a verdadeira história, apenas, versões de um fato.


domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pausa

Prezados visitantes,

logo após o Natal, este blog - ou quem por ele se responsabiliza - fechou para balanço, curtas férias, inusitadas alegrias, inesperados encontros, insuspeitas mudanças de rumo, e alguns indesejáveis imprevistos, além de ter emendado com intensivo trabalho logo no início do novo ano, trabalho esse que acumulou com todos os in citados anteriormente. Toda essa conjunção astral resultou em uma pausa mais longa do que se previa, mas também em muitas e imprevisíveis sensações.

Espero que estejam a engrenar o novo ano a contento ou que consigam ir corrigindo o rumo à medida que as incoerências se apresentarem e que as decisões do réveillon forem esmorecendo.

Espero, igualmente, que não fiquem na bronca com os responsáveis pelo blog, pelo menos, não por muito tempo. Lóri, a sereia das águas do norte, voltará a desviar os mesmos preciosos e contados navegantes para estas águas, muito breve.

En attendant, Bonne Année à tous!
Façam o ano de vocês realmente Novo!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sinterklaas


Hoje, 6 de dezembro, é dia do Nicolau, ou o outro nome do Papai Noel. Pois é, essa história de que ele chega na noite de 24 é pura conveniência para pais e comerciantes que, desse modo, têm quase o mês de Dezembro inteiro para vender e comprar bugigangas e afins de uma variedade quase ilimitada de formas e preços. A tradição vem da Europa do Norte, ou Central, ou de Espanha. Ou, acreditem vocês de onde quiserem.

A primeira vez que ouvi falar deste dia, foi anos atrás, na minha aula de alemão. Tinha uma professora jovem e divertida, de Munique, que levou chocolate pra nós, todos maiores de 18, e contou a história da tradição da terra dela. A coisa deve ter me impressionado tão bem que eu nunca me esqueci. E hoje, ao ver a data no relógio do computador, deu vontade de pensar em o que eu pediria ao bom velhinho se pudesse acreditar. Vamos lá.

Para o Nordeste do Brasil, eu pediria chuva em abundância, mas apenas o suficiente pra fazer o chão gretado se transformar num jardim verde e espalhar o cheiro de terra molhada pela vizinhança, e trazer brilho ao olhar e conforto aos viventes.

Para Santa Catarina, eu pediria um milagre completo, muito completo mesmo. A cada novo dia, surge uma nova modalidade de desgraça consequência das inundações recentes. Portanto, só mesmo um milagre dos bons e abrangente. O resto já estão fazendo os voluntários e a solidariedade inata dos seres humanos.

Para o meu vizinho, eu pediria tolerância com meu barulho de saltos no assoalho de manhã, com a água que pinga quando eu rego os vasos da varanda, com o vazamento que pode acontecer a qualquer hora, além disso, pediria um sorriso quando eu passar por ele/ela na garagem e solidariedade quando eu esquecer o controle da garagem.

Para a minha família, eu pediria o amor incondicional de sempre, a comida fresquinha que sai infalivelmente das panelas da minha mãe, o abraço do meu pai em caso de cano estourado, batida de carro, ou crise profissional.

Para os meus amigos, eu pediria carona à meia-noite em dia de chuva, viagens divertidas e inesperadas, socorro em caso de desespero ou de abandono repentino, e tempo para uma caipirinha em fim de tarde, nem que seja uma vez por ano.

Para o meu coração eu pediria abraços, gargalhadas, música alta, música lenta, música suave conforme o dia.

Para a minha alma eu pediria luz e paciência com a inquilina.

E você, vai pedir o quê?



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Para além do simbólico e dos democratas - um aniversário

Se eu fosse um ultraconservador republicano, diria que ela só podia mesmo ter nascido num dia como o de hoje. Ou, por outra, que o Obama só podia ser eleito num dia como o do aniversário dela. É quase o mesmo. O fato é que a Menina sem nome faz anos hoje e já que ela não deve ter tido arroz-doce em condições, deixo-lhe aqui um mimo, diretamente de uma primavera que nunca mais voltará, pra nenhuma de nós, mas que merecemos todas lembrar muitas vezes. OK, o Bárbaro Branquinho também.

Feliz Aniversário!

Por questões de segurança e privacidade digital, foto absolutamente fantasiosa. Todas as situações e personagens foram inventadas - exceto pelo arroz doce que foi a mãe da S. quem fez e estava uma maravilha; o vinho e o doce de figo que a L. trouxe também; o jantar que a T. fez idem; além dos risos e da farra que foi ótima; e o queijo da serra, claro.
Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.

sábado, 1 de novembro de 2008

Fim do quartinho dos fundos


Este blog já ultrapassou, em postagens, a minha idade em anos e eu estou num impasse. Eu sempre chego a este tipo de impasses, pois, por mais que assuma compromissos comigo e com os outros, a minha natureza não aceita bem esquizofrenias e eu só consigo ser inteira em cada coisa e não só uma parte de mim e do que eu sou, para guardar sovinamente a outra (ou as outras) parte para uma melhor ocasião.

Com este blog acontece o mesmo. Melhor dizendo, este era para ser a parte pública e o outro, a casa da árvore, o interior, o quartinho dos fundos da minha boate onde só entrariam os VIP para beber scotch 12 anos ou fumar o melhor fumo. Como eu não fumo coisa alguma e me satisfaço com Johny Walker 8 anos, dividi-o com todos os que passam e cujo olhar, ainda que virtual, me parece límpido e do bem, ou louco e intrigante. E eu dificilmente me engano com os olhares.

Assim, hoje vou ser íntima e pessoal, pois é difícil ser outra coisa o tempo todo. Claro, estou aprendendo que em determinadas ocasiões, em certos espaços e com específicas pessoas, é preciso ser sempre menos, só uma parte e nunca, nunca, nunca ser o que se é, sob o risco de dar com os burros n'água e sair de nariz esmurrado, joelhos feridos e dente quebrado, sobretudo se não se sabe pôr as mãozinhas na frente quando se cai. Isso é outra coisa que eu nunca aprendi, apesar dos aniversários, pôr as mãos na frente. Mas ainda não desisti. Só que sou má aluna, talvez esse seja o problema.

Fui boa aluna na escola, no colégio, na faculdade. Fui ótima aluna no mestrado e no doutorado. Mas, na vida, sou má aluna: indisciplinada, cheia de vontades e com péssimos hábitos como os de me apaixonar por muitas coisas e por algumas pessoas. Depois que a paixão se instala, eu faço qualquer coisa para prolongar a experiência, mas todos sabemos que as exposições acabam, que as pessoas desaparecem, morrem, se mudam e que no fim daquele maravilhoso espetáculo do Gades a cortina sempre se fecha definitivamente e é hora de levantar da cadeira, encontrar um transporte e seguir para casa.

Estou começando a me exercitar na arte de encontrar o transporte certo e escolher o caminho mais curto e seguro para casa. Mas a vida é tão mais interessante do que isso (quase) o tempo todo...

sábado, 4 de outubro de 2008

De poetas e de gatos


Uma das raras e preciosas frequentadoras deste boteco fez uma postagem que eu, absolutamente, preciso divulgar. Vejam aqui, o que faz um poeta quando é humilde o suficiente para admirar essas especiais criaturas, os gatos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Da cor do sol



Que Deus me dê, antes de morrer, os sabores da cor do sol. Do sol que arde no deserto dos homens azuis; do sol que paira sobre a Toscana dos muros ocres; do sol que banha o Mediterrâneo das casas brancas; do sol que brilha no Nordeste e faz as mangas serem tão perfumadas e doces que só de passar perto delas apetece não ser mais nada além de um ser vivo que pode se alimentar do cheiro e do sabor que elas guardam; do sol das laranjas de Allambra, das laranjas da Bahia, das laranjas que jazem numa banca à espera, em um frasco feitas cristal, com açúcar e magia e derretem na boca depois do jantar.

E que Deus me dê, igualmente, antes de morrer ( e mais algumas vezes antes disso, se possível) todos esses sabores e aromas e mais os do encarnado tomate seco ao sol, molhado no azeite, temperado com hervas e desejo. E que me dê, também, para acompanhar, a maciez do centeio feito pão, como nas serras da infância da minha mãe e que se possa regar tudo isso, com a dourada cerveja ruiva que os monges se encarregaram de nos deixar de herança, para não esquecermos que o estômago fica perto do coração e que os lábios saboreiam e beijam com a mesma saliva e intensidade.


domingo, 31 de agosto de 2008

Because the world will always welcome lovers...

... as time goes by.

Eu bem precisava de um break nesta minha bronca and he gave me a break. Thanks so much, Mr Movie.

Apesar de todas as broncas e de tudo que é tão mais ou menos, ou francamente dispensável, restam os passatempos de verão do meu querido Lauro Antonio e o seu final que é imbatível, de todos os filmes, de todos os affairs, de todos os tempos, Casablanca. Mas esse filme não seria esse filme, se não fosse Miss Bergman, imbatível, e se não fosse a voz de Blue Eyes e se não fosse esta canção. Para coroar um verão na casa do cinema, só podia ser isso. Então, minha humilde concordância com um post maravilhoso que está aqui.

You must remember this
A kiss is still a kiss
A sigh is still (just) a sigh
The fundamental things apply
As time goes by

And when two lovers woo
They still say: "i love you"
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by

Moonlight and love songs - never out of date
Hearts full of passion - jealousy and hate
Woman needs man - and man must have his mate
That no one can deny

It’s still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Tristes trópicos... tristes???


"Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos."Churchill (1874-1965)



Há, realmente, coisas que só devem acontecer por aqui, nestes trópicos que o Strauss chamou de tristes, mas que, ao contrário, me fazem rir satisfeita e acreditar que, como o Churchil comentou sobre a democracia, este lugar também deve ser, entre todos os do planeta que não se parecem (ou, sim, parecem) com o paraíso, o pior lugar, salvo todos os outros.

Estava eu no já esperado, terrível e temível engarrafamento de sexta em fim de tarde na Lagoa. Tinha até me preparado para a prolongada espera dentro do bólido vermelho, comprei Prestígio e Suco de uva diet. Quando, a vida ou a cidade (pois eu sei que isso só é possível em poucos lugares e, de preferência, abaixo do Equador) me oferece um espetáculo digno de nota.

Eu, na pista da esquerda, observava o movimento dos ambulantes que oferecem, aos motoristas, pipoca pronta, biscoito Globo e refri ou água daquelas caixinhas de isopor. De repente, um deles, homem de uns trinta e poucos, com sacos de biscoito nos dois ombros, começa a gesticular enfaticamente na minha direção, chamando e indicando - de-ses-pe-ra-da-men-te - um outro ponto, à sua esquerda, e à minha direita, já que ele estava de frente para mim.

Eu olho e só vejo um ônibus parado na pista da direita. Logo a seguir, percebo, correndo pela calçada da esquerda, uma mulher bem jovem, com a caixinha de isopor sacolejando no quadril direito. Ela passa pelo meu carro, atravessa a rua e ultrapassa o ônibus. O motorista do dito, aflito, põe o braço pra fora (além do bigode que se vê claramente no seu perfil) e aponta para trás, a moça, um pouco confusa, tenta seguir-lhe o movimento. Finalmente, há mais alguém com a mão de fora da janela, bem no meio do ônibus, apontando para dentro do veículo. Lá dentro, em pé, uma jovem de cachos louros estica-se, com uma nota de dois reais na mão, em direção à janela de onde saía a tal mão que apontava para dentro.

A ambulante olha para trás a ver se não corre o risco de ser atropelada pelos apressados moto-boys com suas irritantes buzininhas ansiosas, aproxima-se da janela e, moto-contínuo, tira do isopor uma garrafinha de água mineral, segura a tampa da caixa, estica a garrafa e, ainda segurando-a, pega a nota da mão da menina que continuava esticada dentro do ônibus, por cima das orelhas dos dois passageiros sentados na sua direção.

Aqui, vem o melhor. Eu observava tudo e pensava: "é, aumentaram os refris dos ambulantes, antes era tudo um real". Nesse momento, a vendedora não se move do meio da rua, apenas dá uma espiada na direção de onde vêm as afamadas motos pelo meio das duas filas de veículos, e enfia a mão no bolso.

Tudo se esclareceu e a minha mente de analista sociológica de meia-tijela quase vai ao delírio quando eu compreendo que, não apenas o ônibus continuava parado, apesar de não haver mais nenhum carro à sua frente, parado que tinha ficado, aguardando a chegada da ambulante da caixinha de isopor, como ele continuava exatamente no mesmo ponto da rua, esperando que ela procurasse a moeda para dar troco a sua feliz e loira compradora.

Enquanto isso, nenhum movimento estranho dentro do ônibus, nenhum sinal visível de impaciência, seja da parte do motorista (ele próprio tinha sido a prestável criatura que indicara quem afinal queria comprar o precioso líquido), seja da parte dos outros passageiros, nem mesmo aqueles, por cima dos quais, a passageira tinha se esgueirado para entregar o dinheiro e recolher a garrafa.

Afinal, a vendedora conseguiu encontrar a moeda, fez sinal ao motorista, que a observava pelo espelho lateral externo, de "só mais um instantinho" e pediu ao passageiro da janela que fizesse a gentileza de entregar o troco à sua freguesa. Claro, esta última e polida conversa eu não posso assegurar que se tenha passado, mas que eu fiquei encantada com toda a situação, lá isso fiquei. E a ela assisti de camarote, já que a minha fila, ao contrário da fila onde se encontrava o ônibus, continuava totalmente congestionada e com os carros parados nos mesmos lugares há pelo menos uns 10 minutos. Isso me lembra uma outra história, verídica, vivenciada pela Menina sem nome, mas fica pra outra hora, ou ela mesma se encarrega de contar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Descoberta


Finalmente descobri.....
















...COMO ME PESAR.

'Eu não consigo acreditar que estava fazendo errado todos esses anos. Tenho que avisar todo mundo!!!'

Se calhar é isso que andamos todos a fazer. Passamos os últimos anos fazendo errado algo: trabalhando na profissão errada, amando a pessoa errada, ouvindo as pessoas erradas, dormindo do lado errado da cama... sabe-se lá. Vai o aviso, quem sabe ajuda a sair da bronca.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pour les déroutés

partilhar reflexões e mesmo emoções é uma possibilidade rara em tempos em que o individualismo grassa perigosamente, sugerindo uma paz enganosa.

Partilhar reflexões, partilhar emoções, será que ainda somos capazes dessa proeza ou a anestesia é um byproduct inevitável do individualismo epidêmico, ainda que esse individualismo refira-se a eu e a minha mulher e os meus filhos, ou eu e a minha família, ou eu e o meu time de futebol, ou eu e qualquer coisa que eu incorporo na minha visão especular que, apesar de ter outro nome, é apenas extensão do meu narcísico querer.

Disse-me o rapaz, senhor da História, que não. Ou que sim. Que é possível, que está sempre a fazer isso. Acredito em você, rapaz, tenho de me agarrar nessa sua linda e aprazível visão das relações para poder acordar de manhã e sair da cama. Anda difícil. Até mais do que quando lá fora não havia temperatura acima dos 9 Celsius.

Aqui, neste aprazível pedaço de paraíso, homens e mulheres andam de tal forma intocáveis, ou refratários, ou galvanizados, ou imunizados às emoções que eu tenho uma dificuldade imensa de olhá-los e a elas nos olhos. Até porque ninguém mais se olha nos olhos, ou então tem sempre algo que não é oferecível pois é consequência do tal individualismo e exige troco, estabelece, de antemão, moeda de troca e avaliação, quase sempre determinada por quem a exige e não negociada por ambas as partes interessadas na troca.

E a outra parte da tua frase, sugerindo uma paz enganosa. Acho que querias dizer uma apatia, pois a paz é bem vinda e viceja idéias e reflexão. O problema é que, para não nos chatearmos, preferimos chamar paz à apatia. Sim, porque no fim das contas, ser apático é o não-ser, no não-lugar e todos têm o seu lugar no mundo de hoje arrumadinho, divididinho, categorizadinho. Ninguém vai admitir que não sabe bem o seu lugar, que está perdido. Pois eu prefiro estar perdido. Faço uma plataforma pelos déroutés de todas as nações e tendências. Tenho a intuição de que não sobra quase ninguém se a maioria for sincera. Mas quem é que falou que ser sincero está na moda.

Voltemos ao nosso mundo individualzinho, arrumadinho, delimitadinho e cheiinho dessa paz enganosinha. Fica tão bonitinho na fotinha.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

As agendas

Pode alguém dizer-me pra que servem as agendas antigas. Aquelas que nunca jogamos fora, embora quando são abertas, por acaso, na necessidade de informação esquecida dos dias recentes, haja um amontoado de
Yuri 17-19h30;
Ligar Angela edredon
Notas fim de semana
marcar dedetização
Almoço Gigi aniversário lá em casa
Aniversário Ana Claudia Carioca da Gema
Entregar formulário do seguro
Aniv Jorge
Cortar cabelo
Niver gelo cerveja refri água copos bolo

Foi de trás pra frente (ou da frente pra trás que em questões de cronologia, a frente é o depois e o antes é o atrás, raisparta Chronos, mil vezes). Termina no dia do meu aniversário de quarenta anos e esse sim foi uma data importante. E sabem o que havia na agenda? Nem uma só palavra sobre o que senti.

Nem uma palavra sobre o prazer dos amigos em casa; sobre o espumante Freixenet que a minha amiga norueguesa, casada com o Harry escocês, trouxe para brindarmos; sobre o prazer das flores e da música e dos amigos todos convidados em cima da hora, nenhum faltou ao encontro.

Ou melhor, um faltou. Apenas um. O que me cortou o coração, pois pensei-me jogada de lado. Disse-lhe, depois, na época. Ele deu uma desculpa que não convencia nem as formigas que lhe rondavam os pés, junto à árvore onde paramos no Campus. Ele decididamente não estava convencido. E veio dar uma explicação semana passada, 5 anos depois. Explicação que me deixou parva, pois não explicou nada, só confirmou que eu não sou tão tonta quanto pareço que todo o flirt tinha uma razão e uma origem e que eu não flertava sozinha. Mas fiquei sozinha.

E afinal, pra que servem as agendas? Pra que guardamos agendas que não nos dizem nada que interesse? Pra nos lembrarmos daquilo que permanece tatuado na pele da alma e não necessita de agenda para existir ou ser lembrado, pior ser revivido em dor e na escuridão.

Pra que guardamos as agendas?

Deve ser pra ter certeza de que não sonhamos ou inventamos os acontecimentos. Por exemplo, se aquele telefone e a lista de compras lá estão, o resto todo não pode ser invenção do nosso desejo, embora os psis (de todas as vertentes) digam que assim é e que 90% das nossas memórias nada mais são do que criação espontânea do nosso mais íntimo e inconfessável desejo.

Ainda não sei pra que servem as agendas. Ou pra que guardamos agendas anos a fio. Mas morro de medo de jogá-las fora e não ter mais rastro de quando fui feliz, ou do quanto poderia ter sido.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mais cedo ou mais tarde, nos faltam...

...asas

Gnr

Asas servem para voar,
Para sonhar, ou para planar
Visitar, espreitar, espiar,
Mil casas do ar.

As asas não se vão cortar;
Asas são para combater,
Num lugar infinito no vacuo,
Para respirar o ar.

As asas são
Para proteger, te pintar
Não te esquecer,
Visitar-te, olhar-te, espreitar-te
Bem alto do ar.

E só quando quiseres pousar
Da paixão que te roer,
É um amor que vês nascer
Sem prazo, idade de acabar.
Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer.

Mas só quando quiseres pousar
Da paixão que te roer,
É um amor que vês nascer
Sem prazo, idade de acabar.

Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer.
Não vejo leis para te prender
Acontença o que acontecer.
Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer...

domingo, 6 de julho de 2008

Appellation d'Origine Contrôlée

Joca,

respondo à tua pergunta, sem saber direito se será uma resposta. O título do post inspira-se justamente nessa tua frase que pincei e colei abaixo:

além do mais, para mim, "fato" e "facto" dá no mesmo... e acho delicioso pegar um livro de lingua portuguesa e poder identificar a origem de quem fala/escreve...

Na verdade, tenho que agradecer a alguns amigos e conhecidos que, como tu, têm me remetido com maior ou menor freqüência à questão da reforma e me fazem sair do conforto da academia e de não estar no campo da língua materna, o que me permite - ou permitiu, até aqui - manter-me à margem, sem assumir uma posição. Um dia, enfim, temos que deixar o conforto e cair na água gelada, ou sujar as mãozinhas, ou pô-las na massa, ou carregar pedra. Vamos a isso, sem muita resistência.

Colocas-me a questão fundamental, a da identidade de um grupo de falantes de uma variedade de uma qualquer língua. Por esse lado, eu concordo contigo, as marcas identitárias que fazem a distinção entre o Português da Península Ibérica e este outro - o mesmo, mas diferente - deste enorme trecho da América do Sul, devem ser preservadas e iluminadas, de forma a proporcionar às gerações mais jovens e às que ainda nos lerão a possibilidade de fazer descobertas sobre si mesmas e sobre os outros.

Descobertas que começam na língua e se estendem para além das folhas de papel e das páginas virtuais da rede e vão dar lá bem longe, nas serras do Torga, nos sertões do Guimarães e nas praias do Jorge. A descoberta de um povo e de muitos povos que se expressam no mesmo código, mas que trançam a palha de forma diferente, temperam peixe e feijão com outros segredos, ainda que, no momento do amor, usem as mesmas palavrinhas, mas em ordem diferente - te amo / amo-te. Tenho esse mesmo sentimento que descreves, como quando se bebe o vinho e busca-se, na garrafa, a região de origem e as fantasias pululam na mente até repercutirem no sabor do líquido que se espalha pela língua e escorre pela garganta.

Por outro lado, como técnica que sou, tenho que mencionar que a língua tem múltiplas funções e algumas delas ligam-se a necessidades muito básicas que vão todas dar ao sempre e já descrito vil metal. As necessidade de que falo ligam-se a questões políticas de urgência, não fossem todas as questões sempre políticas.

A língua portuguesa é falada em um sem-número de lugares pelo mundo afora, em todos os continentes, por escolha ou imposição. Ocorre que, em muitos desses locais, essa língua expressa anseios e aflições de povos bastante desprovidos economicamente. Como conseqüência disso é preciso encontrar saídas, ou aberturas maiores, sem dar munição às máfias editoriais que são, em última instância, responsáveis pelo controle do acesso à educação. Sim, trata-se de povos falantes de uma língua que tem, desde o século XII, suporte escrito, oferecendo, portanto, aos seus falantes a possibilidade de registro permanente e escolaridade eventual - quando a economia permite.

Isso tudo para dizer que fico a favor do acordo, por duas razões: uma é a possibilidade de distribuição de publicações de todo tipo - dos jornais aos livros escolares - feita pelos dois grandes pólos de publicação em português, Portugal e Brasil. Essa possibilidade promove concorrência e não só leva a uma baixa dos preços, mas também faz com que se possa usar indiscriminadamente livros de qualquer uma das origens, sem o impasse visto até aqui com relação aos livros publicados em cada lado do Atlântico, sobre os direitos de edição da obra em cada país e sobre a impossibilidade de se comercializarem edições feitas no outro país. Suponho eu, ao menos, que assim seja, pelo que li das implicações legais do acordo e, também, pela querela entre o Agualusa e o Graça Moura... mas isto já são outros quinhentos... anos.

A outra razão, para mim mais tranquilizadora, é, como técnica, saber que a ortografia não altera em nada a expressão identitária de um povo. Diminui a margem de reconhecimento imediato ou para os menos informados, por não trazer em suas linhas o equivalente lingüístico às letrinhas AOC, mas todos continuarão a falar do mesmo jeitinho. Uns, como nós, caiçaras aqui do Rio, continuarão a eliminar o "R" final depois de "a" e "e", e vamos todos
falá e comê no calçadão em diaj de sów. Outros, vão vere o fqp a jogare pelo Puorto no estádio do Dragão. Os alfacinhas vão para a pischina falar mal dos faschistas e aí em Sampa, vocês vão continuar cOmendo dois pastew e um chopis...

PS: Para outras discussões vejam aqui textos de muita gente, inclusive meus, sobre esses arquiusados argumentos para validar uma ou outra variedade como a melhor. Continuo achando que o que interessa não é ter razão, é ser feliz e construir um mundo possível em qualquer das variedades. E, sobretudo, usar a língua como ponte e não como barreira ou posto de controle fornteiriço. Considero que faço isso e fazem também os autores dos blogs que freqüento.


quarta-feira, 2 de julho de 2008

A palavra amealhada

Há exatos dois anos, comprei este livro ao acaso, porque o título me apetecia. Li duas ou três flhas e deixei-me levar pela imposição desenfreada do imediato e poderoso Chronos, esse deus que a maioria adora e incensa. Eu também, andei incensando-o em demasia e o acaso, novamente, a força intrínseca da linguagem que mora em mim, jogaram-me novamente na corrente desta leitura, de onde saí lavada e salva, ao menos por enquanto. O livro chama-se A palavra ameaçada, escrito por uma lingüista e poetisa argentina de nome Ivonne Bordelois. Eis o meu meio de expressar a bronca recorrente.


O espaço oficial da palavra está hoje confinado aos "meios", termo cuja metáfora convém questionar. São realmente meios de informação, comunicação ou entretenimento, como se pretendia nas épocas inaugurais? Não está suficientemente claro, dadas as corridas desenfreadas pelo maior Ibope, dada a substituição do âmbito legal e judicial, dado o caráter extorsivo com relação às figuras públicas, que os chamados meios são antes de tudo meios de poder? (...) Mas a palavra entregue ao poder não é linguagem mas pura consignação, mandato, exploração, alheia à preciosa liberdade, que é o destino profundo da verdadeira palavra humana. E nunca como agora cabe dizer que os fins não justificam os meios.

Existe então uma tensão nas relações entre cultura e linguagem. De certo modo, podemos dizer que a cultura inveja da linguagem o seu desenfreado poder de regeneração. A violência sobre a linguagem, sobre o Eros que manifesta a linguagem, só pode vir de uma poderosa pulsão de morte ambiental que tende a manipular, deteriorar e deturpar o sentido primeiro e original dessa comunicação única, celebrante e prazerosa que é a linguagem no mundo do Eros. A linguagem congrega e comunica, a violência obtura e destrói. Quando a violência se apropria da linguagem, temos a repetição compulsiva do insulto - nosso eterno babaca -, a blasfêmia da agressão sexual - filho da puta -, o incesto verbal - go fuck your mother (vá foder a sua mãe). Quando é a linguagem que se apropria da violência temos Ésquilo, Shakespeare, Quevedo, Isaías, Cristo: a maldição sacra, o exorcismo necessário, a expulsão dos demônios íntimos e sociais.

A palavra poética é violência contra a palavra estabelecida. (...) E a palavra ressuscita chamando e chamejando novamente, recordando a sua e a nossa origem.

Mas é necessário advertir também que a cultura massificante desconfia da linguagem porque, como já dissemos, a consciência crítica da língua é o começo de toda crítica. Segundo Saussure, o modesto e misterioso suíço que funda a lingüística contemporânea, a língua é o sistema social mais poderoso porque está gravado fundamentalmente no inconsciente. Por isso, para aparecer diante de nós mesmos, a primeira recuperação que se faz obrigatória é o reconhecimento de nossa linguagem. Esta é justamente uma das mais poderosas razões pelas quais as grandes culturas contemporâneas não favorecem o desenvolvimento da consciência lingüística ou a restringem somente ao malabarismo da propaganda comercial. Uma cultura massificante entorpece o acesso aos estratos mais profundos da linguagem e de sua consciência, transmite preconceitos sem denunciá-los, empobrece o vocabulário ou esquece suas refrescantes origens.

E justamente porque se opõe à linguagem, a cultura contemporânea destrói o silêncio, que é a condição primeira e fundamental da palavra genuína, a que vem do necessário e do íntimo e que não é simples mola de resposta mecânica. (...) A balbúrdia de nossas cidades, os decibéis de uma música descartável que continuamente atordôa e ensurdece, desafiando e impedindo toda forma de comunicação, são modos patentes de uma violência cada vez mais invasiva que só se sacia com a obstrução da consciência, em particular da consciência que se alimenta dos poderes do diálogo sossegadamente nascido do silêncio.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Cinelândia



Alguém já ouviu falar do Odéon? Não em Paris, mas ali, na ponta do conjunto arquitetônico de uma das avenidas mais emblemáticas de São Sebastião do Rio de Janeiro, no quarteirão que se chamava e ainda se chama Cinelândia. Como se fosse possível fazer durar a época áurea das primeiras casas de exibição da sétima arte em uma cidade que já foi revirada de ponta-a-cabeça, por políticos, pivetes, poetas, cantores, compositores, e até por eles, os arquitetos e os cineastas, porque não?... ah, sim, realizadores, é o nome certo do outro lado do mar.

Pois é, aí, os políticos, empurrados pelos pivetes e sem ouvir os poetas foram trazendo transformações. Fizeram os engenheiros (não sei se com ou sem autorização dos arquitetos) darem cabo do Palácio Monroe, colocarem no lugar um chafariz de ferro fundido, com a desculpa de que era preciso para o metropolitano passar, no início da década de oitenta.

Depois, com as obras do metro e com a degradação da vida das pessoas, e até talvez por causa do desemprego galopante causado pela "computadorização" dos bancos e outros serviços, os pivetes e contraventores, tomaram conta do espaço da "terra do cinema" em frente à Baía de Guanabara. Consequência (viram que aboli o trema?): os cinemas da cinelândia foram ficando desertos e seus donos sem tostão foram vendendo os espaços e surgiu a Igrejolândia, ainda hoje ativa, recentemente batizada pela amiga MEC, que também me cedeu as fotos (embora o executor das mesmas seja o Mr Movie).

Mas como eu ouvi em um filme, life will find a way, veio a Petrobrás e a Lei Rouanet de incentivo à cultura. O Odéon continuou cinema, templo da sétima arte, só que menorzinho, e deu lugar a um delicioso Café european style, cuja panorâmica se pode apreciar na foto. O quadro com os acepipes, é uma lousa negra, com escritos a giz, mas ninguém iria imaginar, na época do Palácio Monroe e do Getúlio Vargas que se serviria tijelinha de moqueca de namorado, assim, impunemente, acompanhada de um sanduba com nome de um incrível personagem da Lapa dos anos 40, Madame Satã e sua travestice descarada. Mas isso já é assunto para o próximo post.

Meu carinho à MEC e ao Mr Movie que me deram o prazer da companhia e o pretexto desta diversão por escrito.

PS: Há muito melhor do que este aperitivo lá no LauroAntonio apresenta. As fotos e o texto dele dão orgulho de ser carioca.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Somos nós e um pouco dos outros também


Ontem, comemoramos o aniversário de uma mulher que eu admiro muito. Ela nasceu cinco anos antes de mim, acompanha-me esse tempo todo, e tenho por ela um carinho que fica exposto a quem nos vê juntas. Os desconhecidos alternam-se entre "eu vi logo que eram irmãs" e "pensei que fossem amigas, mas amigonas daquelas". E nós somos ambas as coisas.

Por isso, e porque ela está radiante nos seus 50 anos, brindamos com espumante e adoçamos a tarde com bolo e sorrisos, para nunca esquecer que a vida tem sempre sempre momentos de doçura, alegria e amparo inesquecíveis e que nos outros momentos, os que são nem tanto, podemos sempre fazer subir bolhas de fantasia e deixar-nos embriagar de leve para fazer doer menos o inevitável.

Deixo aqui, então, um texto que recebi hoje e que fala de nós, mulheres, que nem sempre conseguimos nos despir como poderíamos, mas que certamente temos muito o que mostrar, apesar dos anos que carregamos na pele e no coração.

PS: A foto foi tirada, por mim, na semana passada.

Outro tipo de mulher nua

De Martha Medeiros


Nunca vi tanta mulher nua. Os sites da internet renovam semanalmente seu estoque de gatas vertiginosas. O que não falta é candidata para tirar a roupa. Serviu cafezinho numa cena de novela? Posa pelada. É prima de um jogador de basquete? Posa pelada. Caiu do terceiro andar? Posa pelada.

Depois da invenção do photoshop. Até a mais insignificante das criaturas vira uma deusa, basta dar uns retoquezinhos, aqui e ali. Dá uma grana boa. E o namorado apóia, o pai fica orgulhoso, a mãe acha um acontecimento, as amigas invejam, então pudor pra quê?

Não sei se os homens estão radiantes com essa multiplicação de peitos e bundas. Infelizes não devem estar, mas duvido que algo que se tornou tão banal ainda enfeitice os que têm mais de 14 anos.

Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade - emocionalmente.

Nudez pode ter um significado diferente e muito mais intenso. É assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história. É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente. Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias verdades, sem esconder seus pequenos defeitos - aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana. Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.

Pouco tempo atrás, posar nua ainda era uma excentricidade das artistas, lembro que esperava-se com ansiedade a revista que traria um ensaio de Dina Sfat, por exemplo - pra citar uma mulher que sempre teve mais o que mostrar além do próprio corpo. Mas agora não há mais charme nem suspense, estamos na era das mulheres coisificadas, que posam nuas porque consideram um degrau na carreira. Até é. Na maioria das vezes, rumo à decadência. Escadas servem para descer também.

Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro. Não conheço strip-tease mais sedutor.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Ainda que o Daniel...

... Cohn-Bendit diga que não existe mais, que talvez nunca tenha existido, a não ser no desejo dos jovens de 40 anos atrás, eu acho, e estou certa de que muitos hão de concordar, que este mundo está cheio de motivos e pretextos para um outro maio. Há algo nesta estúpida esfera cada vez mais recheada de cérebros que pede, exige, que não se perca o sentido de Mai 68. Mesmo que todos já saibam que há sempre um pedacinho de plage sous les pavés. Mesmo que já quase nada seja proibido. Ou por isso mesmo.



Maio continua nas ruas do meu país. Maio continua nas ruas do meu outro país. Por favor, corrijam-me os daí, Luís, Rosa, Lauro, Cla. Ou melhor, maio devia continuar, a ver se alguém começava um novo modo de se conduzir e de conduzir os dias e as noites do povo que mora nas calçadas e dos que moram em casas que mal podem receber esse nome e dos que nem moram, por já se terem esquecido que fazem parte da mesma espécie dos que passam, pasta de couro embaixo do braço, perfumados e ausentes do mundo que os cerca. Anda tudo colorido, como abaixo. Mas as palavras do Caetano nunca foram tão realistas.

Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país

Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça
Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça

O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada de uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão

Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis

Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia

No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhora e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim

Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma

Domingo é o Fino da Bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da
Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da



domingo, 27 de abril de 2008

Do msn para a vida, ou seria o contrário?


C.S.: No livro é a terra da Dulcineia
Camille: ahhhhh
Camille: a Dulcineia q so existe nos sonhos e desejos dele
C.S.: sim, mas por isso mesmo vale bem a pena, a Dulcineia não existe mas é como se existisse
C.S.: quando estiveres a ler vais adorar
Camille: Angeles Mastretta - Maridos (é mexicana, mas tem um outro livro q li dela mt bom)
C.S.: vou anotar
Camille: eu imagino..o q me tem salvo a vida nos ultimos anos sao os livros
Camille: Emma Riverola - Cartas desde la ausencia - (guerra civil espanhola, romance epistolar, devorei entre madrid e rio)
C.S.: lês muitos romances?
Camille: tento...
Camille: Antonio Iturbe - Días de sal (ainda nao comecei)
C.S.: eu passo a vida a ler, gosto de fazer crítica literária como quem faz crochet
Camille: 1964, después de Cristo y antes de perder el autobús (algo que envolve Opus Dei e Franco dos ultimos anos)
C.S.: mas agora estou embrennhada no maneirismo e estou a adorar
Camille: ahahahhahahha eu bem vejo isso no blog....amei essa tua frase
C.S.: aliás encontro muito maneirismo nos nossos dias
Camille: vou colocar no meu blog, vou fazer o post para isso... para ti... para nós
Camille: o maneirismo é inerente às sociedades, nao foi só um e stilo de época... vi isso em algum lugar

Depois de alguns acontecimentos recentes, acho que deveríamos todos ser mais maneiristas, e mais sinceros e menos protegidos. Eu decidi recentemente que vou mandar às favas o zelo pela imagem construída. A vida parece curta ao olhar para os meus velhos e para os que ainda estão tentando ser felizes. Estou na bronca com a vida, mas a notícia boa é que já não me importo tanto com as datas e as promessas que não consegui cumprir. Assumo-me como um ser que tantas vezes não deu certo, mas que conseguiu dar certo com amigos e amigas. Finalmente cheguei no ponto de entender a frase do Ferreira Gullar, há tanto tempo decorada: Viver é estar no mundo, às vezes na tona, às vezes no fundo.