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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ela

A bronca, hoje, é comigo. Parece que tirei férias de mim mesma e, depois, perdi a chave para voltar à origem. Claro que, inicialmente, eu talvez não quisesse, ou não tivesse certeza se queria voltar á origem, mas devia ter previsto que, cedo ou tarde, eu ia sentir falta do lugar onde punha meus chinelos e pijama da alma.

A bronca, hoje, é não saber bem onde foi que me deixei, ter algumas certezas, mas não todas e não saber bem como acessá-las, as certezas.

A bronca é saber que a maioria está no mesmo barco, mas cada um resolve de um jeito e a bronca de achar que todos conseguem resolver melhor do que eu.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Fallait-il que l'on s'aime, et qu'on aime la vie


Fui a um concerto. Ou a um show, como queiram, daí ou daqui. Tinha Gilberto Gil, insosso e de menor expressão. Mas tinha Lenine, vibrante e cheio de tesão. (oopsss! É que saiu, rimava tão bem, não só na letra mas também na atração). E tinha o Aznavour, idem idem como o Lenine, com a diferença que ele tem mais uns quarenta anos que este último. O francês, armênio de nascença, magrinho, grisalho e com uma energia e entusiasmo de fazerem inveja aos meus cabelos pintados e ao meu DNA quarentão.


Foi o lançamento oficial do França.br, Ano da França no Brasil. Mas teve gente do meu lado que disse que, na verdade, os franceses estão mesmo interessados em vender armas e submarinos ao Brasil, para enfrentar o Chavéz. Alguém pode me explicar? É que fiquei matutando no fato de que o Brasil tem fronteira terrestre com a Venezuela e, a julgar pelo noticiário, o Lula e o psicótico presidente amigo do Evo, estão mais para bater uma pelada aos domingos do que para jogar batalha naval.

O jovem avançado na idade brasileiro cantou essa aí de baixo. E o idoso vendendo energia e jovialidade francês cantou a outra e várias mais. E essa letra cai tão bem na saison!


A gente vem do rap e da favela,
A gente vem do centro e da periferia,
A gente vem da maré, da palafita,
Vem dos orixás da Bahia,
A gente traz o desejo de alegria e de paz ...
Lenine

L’Année du Brésil en France, Brésil Brésils, en 2005, a connu un vif succès et permis de mesurer l’intérêt grandissant que le Brésil, puissance émergente, suscite en France. Désireux de poursuivre et d’approfondir les partenariats noués à cette occasion, les deux Présidents de la République ont décidé d’organiser un grand événement retour, une Année de la France au Brésil, França.br 2009


Le temps
Le temps qui va

Le temps qui sommeille

Le temps sans joie

Le temps des merveilles

Le temps d'un jour

Temps d'une seconde

Le temps qui court

Et celui qui gronde


Le temps, le temps

Le temps et rien d'autre

Le tien, le mien

Celui qu'on veut nôtre


Le temps passé

Celui qui va naître

Le temps d'aimer

Et de disparaître

Le temps des pleurs

Le temps de la chance

Le temps qui meurt

Le temps des vacances


Le temps, le temps

Le temps et rien d'autre

Le tien, le mien

Celui qu'on veut nôtre


Le temps glorieux

Le temps d'avant-guerre

Le temps des jeux

Le temps des affaires

Le temps joyeux

Le temps des mensonges

Le temps frileux

Et le temps des songes


Le temps des crues

Le temps des folies

Le temps perdu

Le temps de la vie

Le temps qui vient

Jamais ne s'arrete

Et je sais bien

Que la vie est faite


Du temps des uns

Et du temps des autres

Le tien, le mien

Peut devenir nôtre


Le temps, le temps, le temps
Charles Aznavour

sábado, 29 de novembro de 2008

Seja sexo ou cinema


Fui ver o novo Woody Allen. Gostei. Diria mesmo que gostei muito. Ri do humor que execra o grotesco que há na sociedade americana, mas não apenas nela, em quase todas, mas que nela é como que validado e abençoado pelo status quo, enquanto em outras, europeias, por exemplo, parece algo apenas tolerável, como a futilidade e o materialismo levados à sua mais refinada estupidez. Gente que fala de decoração como se da essência da vida se tratasse. Boring people. Porém apenas no contraste com outras coisas, digamos, mais radiantes de vida. Botem as mesmas abordagens e os mesmo diálogos em uma daquelas revistas lindas em papel cochê, com uma quantas fotos de lugares clean and basic, com cores cruas e boa luz e fica tudo tolerável. Parece que o mundo só existe no contraste. Como afirmam aliás, alguns lingüistas, mas, OK, eles falam de outros fatos, outras problemáticas. Mas os psi tb dizem isso: eu existo enquanto mulher porque me oponho a outros seres que são homens. Reconheço-me na minha cultura pois encontro indivíduos de outras culturas, tão seguros da sua validade absoluta quanto eu da minha a ponto de esquecermo-nos, uns e outros, da relatividade gritante que há em cada escolha, em cada olhar, em cada comentário.

Mas gostei do filme. Aí, chega um indíviduo blasé, ou que se quer acima do resto da pobre humanidade, na qual eu me incluo (essa humanidade que expressa abertamente o prazer que obteve do ato), e o tal indivíduo diz aquela baboseira que a gente já ouviu algumas vezes, que o bom mesmo do WA é o seu lado depressivo, que "esse sim é o WA que eu gosto" e que o resto é só mais um filme bem feito e passemos aos mesmos comentários acerca de Almodóvar, e por aí vai. Saímos da sala de cinema e passamos à realidade nua e crua e impregnada daqueles terríveis cheiros de um shopping center, em que se misturam as comidas mais bestas com os perfumes dos usários, num pot-pourri enlouquecido, o qual só se consegue suportar se começamos a pensar na filosofia mais abstrata da vida. Aqui entra a minha principal observação sobre o evento desta noite.

Diria eu ao indivíduo blasé (caso tivesse o que se chama no cotovelo da Europa, pachorra) "olha só, bem feito, pra mim, é o que me dá prazer, seja sexo ou cinema" e ponto. Tá certo, tem que ter fotografia, música e algo que escape a todas a enumerações objetivas mas que é resultado da soma de todos os itens que compõem a obra, mas que não é passível de identificação individualizada. De toda forma, não tou muito preocupada se o realizador (essa palavra até cai bem nas duas situações) é calvo ou branquela, se escolhe bem a cor da camisas ou se come rúcula com os dedos. Só não pode ter um cheiro que me afaste ou uma voz que não me envolva. E tem que fazer filmes que me envolvam em alguma parte indefinida do meu ser ou da minha existência. Claro, pois eu estava falando de cinema, sobretudo. Aliás, eu até acho que gosto mais de cinema do que de sexo (ou é a noite de chuva depois de muito trabalho). É que cinema é um produto que já está acabado e pronto quando você vai usufruir dele. Sexo você tem que construir e depende do humor (seu e do outro) no momento. E depois, cinema, assim como sexo, você tem 50% de chances de gostar ou não gostar, mas se gostar, do cinema, você vai poder repetir a dose e o prazer, sem se preocupar se estará num bom momento, ou se você envelheceu, ou se mudaram as suas preferências. Em geral, se você gosta de um filme, sobretudo se você gosta de um diretor, você gosta dele, não vai mudar de opinião. Pode moldar o olhar, aliás, aqui também, acho que o objeto modela o olhar, caso você goste da primeira vez. Já o sexo... eu nem preciso desfiar o que os mais crescidinhos já estão fartos de saber... próximo filme, por favor. E sem companhias experts em cinema, please.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Para além do simbólico e dos democratas - um aniversário

Se eu fosse um ultraconservador republicano, diria que ela só podia mesmo ter nascido num dia como o de hoje. Ou, por outra, que o Obama só podia ser eleito num dia como o do aniversário dela. É quase o mesmo. O fato é que a Menina sem nome faz anos hoje e já que ela não deve ter tido arroz-doce em condições, deixo-lhe aqui um mimo, diretamente de uma primavera que nunca mais voltará, pra nenhuma de nós, mas que merecemos todas lembrar muitas vezes. OK, o Bárbaro Branquinho também.

Feliz Aniversário!

Por questões de segurança e privacidade digital, foto absolutamente fantasiosa. Todas as situações e personagens foram inventadas - exceto pelo arroz doce que foi a mãe da S. quem fez e estava uma maravilha; o vinho e o doce de figo que a L. trouxe também; o jantar que a T. fez idem; além dos risos e da farra que foi ótima; e o queijo da serra, claro.
Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.

domingo, 19 de outubro de 2008

Olha praí, olha...



... é o que quer dizer o título do filme que vi ontem. Tem a função de um protesto, de uma exclamação de enfado, no baianês delicioso dos personagens. Tem tudo que a gente tem no Brasil e em boa parte do mundo: heróis, canalhas, malandros, prostitutas, foliões, desgraças, alegrias baratas, beatas, macumbeiras e assassinos, além de muita cor, no entorno e nas pessoas. Tem também música da boa, com a Virgínia Rodrigues cantando que é uma delícia e metade do casting dançando à toa. Termina com um toque de realidade feliniano, não fosse o filme inteiro já bem realista. Mudou meu fim de semana, e eu nem me importo se é filme B ou Y... é filme e é um bocado autêntico.

Gabeira ou um fato eleitoral muito novo, para o meu amigo Joca


MARTHA MEDEIROS

Se o Gabeira ganhar

“Sempre fomos amigos, ele é uma pessoa capaz e não pretendo vencer a qualquer preço.” O autor dessa frase é Fernando Gabeira, avisando que não engrossará o tom da campanha para enfrentar Eduardo Paes no segundo turno pela prefeitura do Rio.Infelizmente, algumas mulheres e homens íntegros costumam dar férias para sua integridade durante campanhas eleitorais. Nessa hora, todo mundo vira leão e quer devorar o outro. Imagine um candidato admitir, antes do resultado final, que o adversário é um homem capaz. Por essas e outras é que a grande novidade desta eleição foi a votação expressiva de Gabeira, a despeito de todos os preconceitos que poderiam barrar a alavancagem de sua candidatura. Isso, por si só, já é uma vitória do Brasil – não só do Rio de Janeiro.

Se Gabeira ganhar, será a prova de que o brasileiro está votando de forma mais consciente e que cansou de ficar se lamentando em balcão de bar, repetindo a ladainha de que político é tudo igual.Se Gabeira ganhar, saberemos que existe uma parcela da população que não tem medo de quem possui uma mentalidade aberta e que está apostando em novos horizontes, em quem tem experiência não só política, mas de vida.

Se Gabeira ganhar, finalmente teremos em um cargo público um homem que conversa com o eleitor feito gente grande, dizendo exatamente o que pensa, em vez de apelar para discursos fleumáticos e repetitivos, entulhado de jargões.Se Gabeira ganhar, vai ser a recompensa merecida por ele ter peitado Severino Cavalcanti, dando nele um cala-boca que todos nós gostaríamos de ter dado na ocasião do “mensalinho”.

Se Gabeira ganhar, não será apenas o deputado federal que assumirá o cargo, mas também o escritor e jornalista que tantas vezes defendeu as liberdades individuais, os direitos humanos, as formas alternativas de viver em sociedade e que possui uma consciência ecológica que vem de muito antes disso virar moda.

Muitos políticos – inclusive Fogaça e Maria do Rosário, que disputarão o segundo turno aqui em Porto Alegre – já eliminaram a pose de super-heróis e a prosa característica dos “profissionais” do ramo, aqueles que dizem apenas o que o eleitor quer ouvir, sem compromisso com a viabilidade do que está sendo dito.

Mas Fernando Gabeira, pela projeção nacional que tem e pela cidade problemática que pretende governar, é o fato eleitoral de 2008. É interesse de todos que o Rio resolva suas dificuldades, e que a política brasileira espane a caretice e ganhe um perfil mais corajoso e cosmopolita. Se ele será um bom prefeito, caso vença? Não tenho bola de cristal. Mas ter superado a desconfiança diante da sua biografia incomum já é motivo para comemorarmos.

Retirado do Jornal Zero Hora, que circula na cidade de Porto Alegre, localizada a uns bons 1.500 km do Rio de Janeiro.

sábado, 4 de outubro de 2008

De poetas e de gatos


Uma das raras e preciosas frequentadoras deste boteco fez uma postagem que eu, absolutamente, preciso divulgar. Vejam aqui, o que faz um poeta quando é humilde o suficiente para admirar essas especiais criaturas, os gatos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Tristes trópicos... tristes???


"Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos."Churchill (1874-1965)



Há, realmente, coisas que só devem acontecer por aqui, nestes trópicos que o Strauss chamou de tristes, mas que, ao contrário, me fazem rir satisfeita e acreditar que, como o Churchil comentou sobre a democracia, este lugar também deve ser, entre todos os do planeta que não se parecem (ou, sim, parecem) com o paraíso, o pior lugar, salvo todos os outros.

Estava eu no já esperado, terrível e temível engarrafamento de sexta em fim de tarde na Lagoa. Tinha até me preparado para a prolongada espera dentro do bólido vermelho, comprei Prestígio e Suco de uva diet. Quando, a vida ou a cidade (pois eu sei que isso só é possível em poucos lugares e, de preferência, abaixo do Equador) me oferece um espetáculo digno de nota.

Eu, na pista da esquerda, observava o movimento dos ambulantes que oferecem, aos motoristas, pipoca pronta, biscoito Globo e refri ou água daquelas caixinhas de isopor. De repente, um deles, homem de uns trinta e poucos, com sacos de biscoito nos dois ombros, começa a gesticular enfaticamente na minha direção, chamando e indicando - de-ses-pe-ra-da-men-te - um outro ponto, à sua esquerda, e à minha direita, já que ele estava de frente para mim.

Eu olho e só vejo um ônibus parado na pista da direita. Logo a seguir, percebo, correndo pela calçada da esquerda, uma mulher bem jovem, com a caixinha de isopor sacolejando no quadril direito. Ela passa pelo meu carro, atravessa a rua e ultrapassa o ônibus. O motorista do dito, aflito, põe o braço pra fora (além do bigode que se vê claramente no seu perfil) e aponta para trás, a moça, um pouco confusa, tenta seguir-lhe o movimento. Finalmente, há mais alguém com a mão de fora da janela, bem no meio do ônibus, apontando para dentro do veículo. Lá dentro, em pé, uma jovem de cachos louros estica-se, com uma nota de dois reais na mão, em direção à janela de onde saía a tal mão que apontava para dentro.

A ambulante olha para trás a ver se não corre o risco de ser atropelada pelos apressados moto-boys com suas irritantes buzininhas ansiosas, aproxima-se da janela e, moto-contínuo, tira do isopor uma garrafinha de água mineral, segura a tampa da caixa, estica a garrafa e, ainda segurando-a, pega a nota da mão da menina que continuava esticada dentro do ônibus, por cima das orelhas dos dois passageiros sentados na sua direção.

Aqui, vem o melhor. Eu observava tudo e pensava: "é, aumentaram os refris dos ambulantes, antes era tudo um real". Nesse momento, a vendedora não se move do meio da rua, apenas dá uma espiada na direção de onde vêm as afamadas motos pelo meio das duas filas de veículos, e enfia a mão no bolso.

Tudo se esclareceu e a minha mente de analista sociológica de meia-tijela quase vai ao delírio quando eu compreendo que, não apenas o ônibus continuava parado, apesar de não haver mais nenhum carro à sua frente, parado que tinha ficado, aguardando a chegada da ambulante da caixinha de isopor, como ele continuava exatamente no mesmo ponto da rua, esperando que ela procurasse a moeda para dar troco a sua feliz e loira compradora.

Enquanto isso, nenhum movimento estranho dentro do ônibus, nenhum sinal visível de impaciência, seja da parte do motorista (ele próprio tinha sido a prestável criatura que indicara quem afinal queria comprar o precioso líquido), seja da parte dos outros passageiros, nem mesmo aqueles, por cima dos quais, a passageira tinha se esgueirado para entregar o dinheiro e recolher a garrafa.

Afinal, a vendedora conseguiu encontrar a moeda, fez sinal ao motorista, que a observava pelo espelho lateral externo, de "só mais um instantinho" e pediu ao passageiro da janela que fizesse a gentileza de entregar o troco à sua freguesa. Claro, esta última e polida conversa eu não posso assegurar que se tenha passado, mas que eu fiquei encantada com toda a situação, lá isso fiquei. E a ela assisti de camarote, já que a minha fila, ao contrário da fila onde se encontrava o ônibus, continuava totalmente congestionada e com os carros parados nos mesmos lugares há pelo menos uns 10 minutos. Isso me lembra uma outra história, verídica, vivenciada pela Menina sem nome, mas fica pra outra hora, ou ela mesma se encarrega de contar.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pour les déroutés

partilhar reflexões e mesmo emoções é uma possibilidade rara em tempos em que o individualismo grassa perigosamente, sugerindo uma paz enganosa.

Partilhar reflexões, partilhar emoções, será que ainda somos capazes dessa proeza ou a anestesia é um byproduct inevitável do individualismo epidêmico, ainda que esse individualismo refira-se a eu e a minha mulher e os meus filhos, ou eu e a minha família, ou eu e o meu time de futebol, ou eu e qualquer coisa que eu incorporo na minha visão especular que, apesar de ter outro nome, é apenas extensão do meu narcísico querer.

Disse-me o rapaz, senhor da História, que não. Ou que sim. Que é possível, que está sempre a fazer isso. Acredito em você, rapaz, tenho de me agarrar nessa sua linda e aprazível visão das relações para poder acordar de manhã e sair da cama. Anda difícil. Até mais do que quando lá fora não havia temperatura acima dos 9 Celsius.

Aqui, neste aprazível pedaço de paraíso, homens e mulheres andam de tal forma intocáveis, ou refratários, ou galvanizados, ou imunizados às emoções que eu tenho uma dificuldade imensa de olhá-los e a elas nos olhos. Até porque ninguém mais se olha nos olhos, ou então tem sempre algo que não é oferecível pois é consequência do tal individualismo e exige troco, estabelece, de antemão, moeda de troca e avaliação, quase sempre determinada por quem a exige e não negociada por ambas as partes interessadas na troca.

E a outra parte da tua frase, sugerindo uma paz enganosa. Acho que querias dizer uma apatia, pois a paz é bem vinda e viceja idéias e reflexão. O problema é que, para não nos chatearmos, preferimos chamar paz à apatia. Sim, porque no fim das contas, ser apático é o não-ser, no não-lugar e todos têm o seu lugar no mundo de hoje arrumadinho, divididinho, categorizadinho. Ninguém vai admitir que não sabe bem o seu lugar, que está perdido. Pois eu prefiro estar perdido. Faço uma plataforma pelos déroutés de todas as nações e tendências. Tenho a intuição de que não sobra quase ninguém se a maioria for sincera. Mas quem é que falou que ser sincero está na moda.

Voltemos ao nosso mundo individualzinho, arrumadinho, delimitadinho e cheiinho dessa paz enganosinha. Fica tão bonitinho na fotinha.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Das meninas...


... Hoje estou naqueles dias. Só me faltava mesmo esta, depois de Brasília e de um sábado tolerável. Ao levantar pela terceira vez da cama, andar descalça pelo chão de madeira do quarto, pisar no ladrilho branco do meu banheiro azul e branco, olhar no espelho o cabelo todo desfeito, resolvi que valia a pena um post. Depois dos dois Tylenol e do café "petit noir bien serré" ver se ganhava cor de domingo. Depois, também, de um delicioso filme - tentativa vã de encontrar energia para o dia - visto pela terceira vez talvez, com a Binoche e o Jean Renno, que fala exatamente de homens e mulheres e de que a vida não vale mesmo grande coisa, exceto quando nós fazemos o nosso happy end - já que ninguém o fará por nós, resolvi falar do que me faz feliz, apesar de tudo que não é assim haut de gamme como diria o personagem masculino do dito filminho.

Vai aí:
Falar francês (é como uma segunda natureza e há dois ou três conceitos que se expressam tão bem nessa língua como: sans reproche, ah bon?!, c'est pas évident, tout à fait, je suis amoureux de vous).
Cheiro de café feito, mesmo às 6h da manhã, quando nada se mexe ainda em torno.
Café recém moído para um café a dois ainda de manhã.
Cuisine française traditionnelle (nada de nouvelle cuisine, mas a delicadeza dos perfumes verdadeiros e de uma salade niçoise bem feita).
A alegria do meu pai ao me ver e ao me ouvir contar novidades.
Cartão de um amigo querido que morava tão longe, na Africa do Sul, e que se mudou para Lisboa.
Tudo que eu guardei desse amigo querido, enviado via postal, mas detalhes tão pessoais que é quase em presença.
A primeira frase, no email de um outro que ainda mora em Berlim e que diz que nosso afeto é tão forte que resiste bem a umas semanas de silêncio pois já resistiu a 20 anos de ausência.
A voz de uma amiga ao telefone que mora no Porto e me perdoa as ausências todas e me fala sempre como se fosse ontem nossa última conversa sobre a essência da vida.
O olhar de uma ex-aluna que na sua defesa de mestrado diz que eu fui importante em suas escolhas.
Um amigo cujo cheiro eu nunca senti e que me manda livros seus apenas porque sim e que é um querido.
Um amigo que eu pouco vi mas com quem sinto uma ligação inexplicável e me fala de cinema e me oferece livros e críticas.
Mais alguns amigos que eu nunca vi mas que andam em torno, virtualmente, e me fazem sentir menos um número, mais um olhar.
Uma amiga que eu só vi uma vez, que escreve no blog dela que somos almas gêmeas, ela da rambóia, eu de tudo que não interessa pra ser feliz.
Escrever isto tudo a ouvir a Patricia Kaas que a Menina Sem Nome me ofereceu no ano passado, essa menina que está sempre a postos, seja em Aveiro quando eu precisava de um miminho e um café, seja em Berlim, para um trabalho em conjunto, à distância, só como pretexto de um novo encontro pra rirmos.
Ter recordações que são de muitos lugares mas cujo centro são sempre as pessoas, seja em Lisboa - Chiado, Restelo, CCB, Benfica, Fonte Luminosa, Rossio; em Aveiro - Galitos, UA, ....; em Évora, em Viana, em Coimbra, em Cacilhas, no Porto - na Foz, Boa Vista, Gondomar, Praça do Infante, Ribeira; no Marco; em Antuérpia, em Berlim, em Bruxelas, em Paris, no Rio, em São Paulo, e onde for meu olhar e meu coração.