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domingo, 7 de dezembro de 2008

Ainda o amor...

...or what some use to call love.

Já que a Telma mencionou. Eu estou aqui matutando sobre a correlação que ela fez entre "Vicky Cristina Barcelona" e este poema. Por via das dúvidas, segue o poema que eu conheço bem e já tinha até esquecido. Vou buscar os meus livre de poche do Prévert pra ver a vida sob outro ângulo.


Pour toi mon amour







Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour

Jacques Prevert

domingo, 30 de novembro de 2008

Mais um item de cinema


Hoje foi dia de Burn after reading. Gente, esses irmãos Cohen tão cada vez mais folgados. Dão-se ao luxo de fazer qualquer filme (agora vou ser execrada pelos experts!) pelo simples motivo de que há quem pague a fatura, e eu estou sendo absolutamente literal, não há metáfora nisso. Estou falando mesmo do financiamento da produção de um filme, que é gasto inerente à sua realização. Ainda mais considerando o casting escolhido... ui!

Agora, digam, se fosse um ilustre desconhecido tentando fazer um filme com esse argumento, duvido que encontrasse dinheiro. OK, eu sei bem que há realizadores que podem ter em mãos qualquer roteiro que a coisa vai sempre correr bem.

Foi o caso. É genial a idéia de construir uma história, incluindo 3 mortes bestas, em cima de um equívoco estúpido. E nem sequer há uma nuance de suspense ou de tragicidade. O filme não é trágico, embora fale de relacionamentos desmoronados, vidas em frangalhos e mortes inexplicadas. Claro que os atores escolhidos ajudam. O que eu mais gostei foi o John Malkovich e a fria personagem da Tilda Suinton, ainda melhor por nem sequer se questionar sobre a sua condição.

Enfim... fico aguardando a crítica a sério do Mr Movie. A propósito, alguém pode me explicar o que aconteceu com o personagem do George Clooney? É que eu me virei para fazer um comentário bem na hora em que o estúpido do ex-chefe do Malkovich descreve o que se passou e fiquei sem saber o desenlace desse item.

Ai Jesus, que eu vou conseguir me redimir das minhas faltas ao cinema nos últimos meses!

sábado, 29 de novembro de 2008

Seja sexo ou cinema


Fui ver o novo Woody Allen. Gostei. Diria mesmo que gostei muito. Ri do humor que execra o grotesco que há na sociedade americana, mas não apenas nela, em quase todas, mas que nela é como que validado e abençoado pelo status quo, enquanto em outras, europeias, por exemplo, parece algo apenas tolerável, como a futilidade e o materialismo levados à sua mais refinada estupidez. Gente que fala de decoração como se da essência da vida se tratasse. Boring people. Porém apenas no contraste com outras coisas, digamos, mais radiantes de vida. Botem as mesmas abordagens e os mesmo diálogos em uma daquelas revistas lindas em papel cochê, com uma quantas fotos de lugares clean and basic, com cores cruas e boa luz e fica tudo tolerável. Parece que o mundo só existe no contraste. Como afirmam aliás, alguns lingüistas, mas, OK, eles falam de outros fatos, outras problemáticas. Mas os psi tb dizem isso: eu existo enquanto mulher porque me oponho a outros seres que são homens. Reconheço-me na minha cultura pois encontro indivíduos de outras culturas, tão seguros da sua validade absoluta quanto eu da minha a ponto de esquecermo-nos, uns e outros, da relatividade gritante que há em cada escolha, em cada olhar, em cada comentário.

Mas gostei do filme. Aí, chega um indíviduo blasé, ou que se quer acima do resto da pobre humanidade, na qual eu me incluo (essa humanidade que expressa abertamente o prazer que obteve do ato), e o tal indivíduo diz aquela baboseira que a gente já ouviu algumas vezes, que o bom mesmo do WA é o seu lado depressivo, que "esse sim é o WA que eu gosto" e que o resto é só mais um filme bem feito e passemos aos mesmos comentários acerca de Almodóvar, e por aí vai. Saímos da sala de cinema e passamos à realidade nua e crua e impregnada daqueles terríveis cheiros de um shopping center, em que se misturam as comidas mais bestas com os perfumes dos usários, num pot-pourri enlouquecido, o qual só se consegue suportar se começamos a pensar na filosofia mais abstrata da vida. Aqui entra a minha principal observação sobre o evento desta noite.

Diria eu ao indivíduo blasé (caso tivesse o que se chama no cotovelo da Europa, pachorra) "olha só, bem feito, pra mim, é o que me dá prazer, seja sexo ou cinema" e ponto. Tá certo, tem que ter fotografia, música e algo que escape a todas a enumerações objetivas mas que é resultado da soma de todos os itens que compõem a obra, mas que não é passível de identificação individualizada. De toda forma, não tou muito preocupada se o realizador (essa palavra até cai bem nas duas situações) é calvo ou branquela, se escolhe bem a cor da camisas ou se come rúcula com os dedos. Só não pode ter um cheiro que me afaste ou uma voz que não me envolva. E tem que fazer filmes que me envolvam em alguma parte indefinida do meu ser ou da minha existência. Claro, pois eu estava falando de cinema, sobretudo. Aliás, eu até acho que gosto mais de cinema do que de sexo (ou é a noite de chuva depois de muito trabalho). É que cinema é um produto que já está acabado e pronto quando você vai usufruir dele. Sexo você tem que construir e depende do humor (seu e do outro) no momento. E depois, cinema, assim como sexo, você tem 50% de chances de gostar ou não gostar, mas se gostar, do cinema, você vai poder repetir a dose e o prazer, sem se preocupar se estará num bom momento, ou se você envelheceu, ou se mudaram as suas preferências. Em geral, se você gosta de um filme, sobretudo se você gosta de um diretor, você gosta dele, não vai mudar de opinião. Pode moldar o olhar, aliás, aqui também, acho que o objeto modela o olhar, caso você goste da primeira vez. Já o sexo... eu nem preciso desfiar o que os mais crescidinhos já estão fartos de saber... próximo filme, por favor. E sem companhias experts em cinema, please.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Das meninas...


... Hoje estou naqueles dias. Só me faltava mesmo esta, depois de Brasília e de um sábado tolerável. Ao levantar pela terceira vez da cama, andar descalça pelo chão de madeira do quarto, pisar no ladrilho branco do meu banheiro azul e branco, olhar no espelho o cabelo todo desfeito, resolvi que valia a pena um post. Depois dos dois Tylenol e do café "petit noir bien serré" ver se ganhava cor de domingo. Depois, também, de um delicioso filme - tentativa vã de encontrar energia para o dia - visto pela terceira vez talvez, com a Binoche e o Jean Renno, que fala exatamente de homens e mulheres e de que a vida não vale mesmo grande coisa, exceto quando nós fazemos o nosso happy end - já que ninguém o fará por nós, resolvi falar do que me faz feliz, apesar de tudo que não é assim haut de gamme como diria o personagem masculino do dito filminho.

Vai aí:
Falar francês (é como uma segunda natureza e há dois ou três conceitos que se expressam tão bem nessa língua como: sans reproche, ah bon?!, c'est pas évident, tout à fait, je suis amoureux de vous).
Cheiro de café feito, mesmo às 6h da manhã, quando nada se mexe ainda em torno.
Café recém moído para um café a dois ainda de manhã.
Cuisine française traditionnelle (nada de nouvelle cuisine, mas a delicadeza dos perfumes verdadeiros e de uma salade niçoise bem feita).
A alegria do meu pai ao me ver e ao me ouvir contar novidades.
Cartão de um amigo querido que morava tão longe, na Africa do Sul, e que se mudou para Lisboa.
Tudo que eu guardei desse amigo querido, enviado via postal, mas detalhes tão pessoais que é quase em presença.
A primeira frase, no email de um outro que ainda mora em Berlim e que diz que nosso afeto é tão forte que resiste bem a umas semanas de silêncio pois já resistiu a 20 anos de ausência.
A voz de uma amiga ao telefone que mora no Porto e me perdoa as ausências todas e me fala sempre como se fosse ontem nossa última conversa sobre a essência da vida.
O olhar de uma ex-aluna que na sua defesa de mestrado diz que eu fui importante em suas escolhas.
Um amigo cujo cheiro eu nunca senti e que me manda livros seus apenas porque sim e que é um querido.
Um amigo que eu pouco vi mas com quem sinto uma ligação inexplicável e me fala de cinema e me oferece livros e críticas.
Mais alguns amigos que eu nunca vi mas que andam em torno, virtualmente, e me fazem sentir menos um número, mais um olhar.
Uma amiga que eu só vi uma vez, que escreve no blog dela que somos almas gêmeas, ela da rambóia, eu de tudo que não interessa pra ser feliz.
Escrever isto tudo a ouvir a Patricia Kaas que a Menina Sem Nome me ofereceu no ano passado, essa menina que está sempre a postos, seja em Aveiro quando eu precisava de um miminho e um café, seja em Berlim, para um trabalho em conjunto, à distância, só como pretexto de um novo encontro pra rirmos.
Ter recordações que são de muitos lugares mas cujo centro são sempre as pessoas, seja em Lisboa - Chiado, Restelo, CCB, Benfica, Fonte Luminosa, Rossio; em Aveiro - Galitos, UA, ....; em Évora, em Viana, em Coimbra, em Cacilhas, no Porto - na Foz, Boa Vista, Gondomar, Praça do Infante, Ribeira; no Marco; em Antuérpia, em Berlim, em Bruxelas, em Paris, no Rio, em São Paulo, e onde for meu olhar e meu coração.