Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ainda o amor...

...or what some use to call love.

Já que a Telma mencionou. Eu estou aqui matutando sobre a correlação que ela fez entre "Vicky Cristina Barcelona" e este poema. Por via das dúvidas, segue o poema que eu conheço bem e já tinha até esquecido. Vou buscar os meus livre de poche do Prévert pra ver a vida sob outro ângulo.


Pour toi mon amour







Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour

Jacques Prevert

terça-feira, 15 de julho de 2008

Quem fala português e desfala II


Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d'aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

(por Fernando Pessoa)

Quem fala português e desfala I

Invernáculo (3)
Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz , além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

(Paulo Leminski)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de abril


Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto. (...) À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte.
José Luis Peixoto

Quanto sangue é/foi preciso para preencher o vermelho da bandeira? Sangue antigo, de Alcácer Quibir, do Cabo das Tormentas, de Ourique ou Aljubarrota; sangue novo, no Terreiro do Paço, na Guiné, em Angola, Moçambique ou em Timor.

Feliz mais um Abril!
A todos que o fizeram, aos que não o fizeram, aos que o desejaram, aos que não o desejaram, aos que ainda esperam.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Tibet

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta

por Zeca Afonso

Por que ainda falta fazer outros "25 de abril". E muitos nunca chegarão a ser.

Foto tirada daqui.

domingo, 2 de março de 2008

Meu Rio

Apresentação de fotos do Rio de Janeiro.
Todas as fotos: Sergio Fonseca
Música: São Sebastião (Totonho Villeroy)
Voz: Mart'Nália (com participação de Maria Bethânia)
Arranjo: Jaime Além

Este é o fim de semana dos clips, pelo visto. Mas é que foram impulsos e não devemos resistir aos impulsos. Como diria Oscar Wilde, "sou capaz de resistir a tudo, menos às tentações" e acredito piamente que devemos nos entregar, sobretudo quanto mais os anos passam, à vertigem do momento.

E já que estamos nisso, se deixarem carregar o clip, o que exige, eu bem sei, uma boa dose de paciência virtual e concreta, enquanto a linhazinha vermelha do youtube vai se completando, verão fotos quase arquetípicas da cidade que a Bethânia chama tão adequadamente, de estandarte do Brasil. Não há reparo a se fazer a isso. Seja lá o que for que se acrescente de bom ou de ruim. É assim e pronto.

E como é aqui que eu vivo, e aqui que tantos vêm me ver. E aqui que tantos e tantas outros e outras vêm em busca da tão cantada maravilha. E onde a encontram, embora encontrem também, é certo, as desmaravilhas. Mas, ok, não há rosas sem espinhos, meus amigos, já dizia a minha avó que, por sinal, sequer sabia quem foi Oscar Wilde. E mesmo que soubesse, suponho que tivesse ficado escandalizada, mas cá está entre as mesmas citações pois afinal teve uma neta, com a qual, é bem provável, também se escandalizasse. Mas isso já são outros quinhentos, embora sejam só 433 os anos que a cidade faz.

E é por isso que eu posto este clip. Por que a minha cidade, de encantos mil, adotada por meu pai há mais tempo do que ele foi capaz de viver na Península Ibérica, está de parabéns. E está mesmo de parabéns, pois não deve ser tarefa fácil resistir encantadora com tantos desencantos e com tanta gente a querer tragá-la em corrupção, lixo, descuido, desmandos, tráfico, pobreza, desmatamento, desleixo, mas também, para cada uma dessas desmaravilhas, há uma reação indignada de milhares de habitantes, da gema ou de fora, que lutam dia a dia para manter a extensão de maravilhas.

NB: Não há uma única foto que não me remeta a uma memória, a uma experiência e a muitas tentações. Não há, tampouco, montagens, sou capaz de indicar quase todos os pontos de onde foram feitas as fotos, os locais eu conheço todos e respondo pela autenticidade do material. Deu até vontade ir buscar as minhas e fazer um painel à guisa de carimbo de proveniência desta maravilha onde Deus me permite viver. E pra onde sempre me tem trazido de volta, mesmo quando insisto em voar pra outros lados.