Há exatos dois anos, comprei este livro ao acaso, porque o título me apetecia. Li duas ou três flhas e deixei-me levar pela imposição desenfreada do imediato e poderoso Chronos, esse deus que a maioria adora e incensa. Eu também, andei incensando-o em demasia e o acaso, novamente, a força intrínseca da linguagem que mora em mim, jogaram-me novamente na corrente desta leitura, de onde saí lavada e salva, ao menos por enquanto. O livro chama-se A palavra ameaçada, escrito por uma lingüista e poetisa argentina de nome Ivonne Bordelois. Eis o meu meio de expressar a bronca recorrente.
O espaço oficial da palavra está hoje confinado aos "meios", termo cuja metáfora convém questionar. São realmente meios de informação, comunicação ou entretenimento, como se pretendia nas épocas inaugurais? Não está suficientemente claro, dadas as corridas desenfreadas pelo maior Ibope, dada a substituição do âmbito legal e judicial, dado o caráter extorsivo com relação às figuras públicas, que os chamados meios são antes de tudo meios de poder? (...) Mas a palavra entregue ao poder não é linguagem mas pura consignação, mandato, exploração, alheia à preciosa liberdade, que é o destino profundo da verdadeira palavra humana. E nunca como agora cabe dizer que os fins não justificam os meios.
Existe então uma tensão nas relações entre cultura e linguagem. De certo modo, podemos dizer que a cultura inveja da linguagem o seu desenfreado poder de regeneração. A violência sobre a linguagem, sobre o Eros que manifesta a linguagem, só pode vir de uma poderosa pulsão de morte ambiental que tende a manipular, deteriorar e deturpar o sentido primeiro e original dessa comunicação única, celebrante e prazerosa que é a linguagem no mundo do Eros. A linguagem congrega e comunica, a violência obtura e destrói. Quando a violência se apropria da linguagem, temos a repetição compulsiva do insulto - nosso eterno babaca -, a blasfêmia da agressão sexual - filho da puta -, o incesto verbal - go fuck your mother (vá foder a sua mãe). Quando é a linguagem que se apropria da violência temos Ésquilo, Shakespeare, Quevedo, Isaías, Cristo: a maldição sacra, o exorcismo necessário, a expulsão dos demônios íntimos e sociais.
A palavra poética é violência contra a palavra estabelecida. (...) E a palavra ressuscita chamando e chamejando novamente, recordando a sua e a nossa origem.
Mas é necessário advertir também que a cultura massificante desconfia da linguagem porque, como já dissemos, a consciência crítica da língua é o começo de toda crítica. Segundo Saussure, o modesto e misterioso suíço que funda a lingüística contemporânea, a língua é o sistema social mais poderoso porque está gravado fundamentalmente no inconsciente. Por isso, para aparecer diante de nós mesmos, a primeira recuperação que se faz obrigatória é o reconhecimento de nossa linguagem. Esta é justamente uma das mais poderosas razões pelas quais as grandes culturas contemporâneas não favorecem o desenvolvimento da consciência lingüística ou a restringem somente ao malabarismo da propaganda comercial. Uma cultura massificante entorpece o acesso aos estratos mais profundos da linguagem e de sua consciência, transmite preconceitos sem denunciá-los, empobrece o vocabulário ou esquece suas refrescantes origens.
E justamente porque se opõe à linguagem, a cultura contemporânea destrói o silêncio, que é a condição primeira e fundamental da palavra genuína, a que vem do necessário e do íntimo e que não é simples mola de resposta mecânica. (...) A balbúrdia de nossas cidades, os decibéis de uma música descartável que continuamente atordôa e ensurdece, desafiando e impedindo toda forma de comunicação, são modos patentes de uma violência cada vez mais invasiva que só se sacia com a obstrução da consciência, em particular da consciência que se alimenta dos poderes do diálogo sossegadamente nascido do silêncio.