domingo, 1 de junho de 2008

Para quem tem a chave


Há novidades na casa de campo. Ou seria da árvore?

Ao lembrar do poeta quase pássaro,


como disse a moça da ÁguaViva, o tal que tomou veneno em Paris e que por "um pouco mais de sol", retomei um texto recente, em que eu era assim:

Acabo de ler "Cartas desde la ausencia" e, ainda que seja com o meu espanhol lleno de vacíos, fiquei arrasada e o livro caiu-me como uma bomba certeira, bem no centro dos meus "não seis" que eu tenho usado ultimamente para acalmar minha angústia. A angústia diante da certeza íntima de que estou no caminho mais rápido e mais reto para longe de mim. Longe de tudo em que acredito. Longe do meu desejo. Tenho medo de me afastar tanto que já não vou saber como regressar. Por isso escrevo.

Acho que o jogo era esse mesmo. Afastar-me de tal forma de mim que já não saberei voltar. Mas o que eu sou me puxa de volta e cá estou eu. Podia ser como todos, e criar mecanismos de flutuação, como pequenos prazeres e a própria inveja alheia como alimento para a minha diversão. O fato é que nunca me alimentou a inveja alheia, e eu mesma nunca fui boa em exercitar esse sentimento.

Mas a inveja alheia só me desalterna de mim mesma ou me faz retornar a mim, mais sedenta e sóbria, mais só e certa, mais curiosa do que se lhe opõe. A inveja alheia alimenta quem a sente, mas não me suja os pés, nem desencontra. Apenas desencanta a parte minha que ainda acreditava um pouco nesses alheios e que tem que deixar no caminho mais um copo vazio, mais uma cadeira recém-desocupada, mais um olhar de desencontro que ameaçou, um dia, encontro pleno e ficou só na promessa falsificada, como qualquer made in china que se preze.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Ainda que o Daniel...

... Cohn-Bendit diga que não existe mais, que talvez nunca tenha existido, a não ser no desejo dos jovens de 40 anos atrás, eu acho, e estou certa de que muitos hão de concordar, que este mundo está cheio de motivos e pretextos para um outro maio. Há algo nesta estúpida esfera cada vez mais recheada de cérebros que pede, exige, que não se perca o sentido de Mai 68. Mesmo que todos já saibam que há sempre um pedacinho de plage sous les pavés. Mesmo que já quase nada seja proibido. Ou por isso mesmo.



Maio continua nas ruas do meu país. Maio continua nas ruas do meu outro país. Por favor, corrijam-me os daí, Luís, Rosa, Lauro, Cla. Ou melhor, maio devia continuar, a ver se alguém começava um novo modo de se conduzir e de conduzir os dias e as noites do povo que mora nas calçadas e dos que moram em casas que mal podem receber esse nome e dos que nem moram, por já se terem esquecido que fazem parte da mesma espécie dos que passam, pasta de couro embaixo do braço, perfumados e ausentes do mundo que os cerca. Anda tudo colorido, como abaixo. Mas as palavras do Caetano nunca foram tão realistas.

Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país

Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça
Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça

O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada de uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão

Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis

Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
Viva Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia

No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhora e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim

Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma

Domingo é o Fino da Bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da
Viva a banda-da-da
Carmem Miranda-da-da-da-da



domingo, 11 de maio de 2008

A Tropicália

Pra recordar.
Quando éramos revolucionários.
Quando éramos crianças.
Quando acreditávamos.
Quando lutava-se.
Quando amava-se.
Quando a terra era um planeta azul.
Quando havia ainda mais de 30 anos para se consertar o século.
Quando havia um país a consertar.
Quando iam todos mudar o mundo.

domingo, 27 de abril de 2008

Do msn para a vida, ou seria o contrário?


C.S.: No livro é a terra da Dulcineia
Camille: ahhhhh
Camille: a Dulcineia q so existe nos sonhos e desejos dele
C.S.: sim, mas por isso mesmo vale bem a pena, a Dulcineia não existe mas é como se existisse
C.S.: quando estiveres a ler vais adorar
Camille: Angeles Mastretta - Maridos (é mexicana, mas tem um outro livro q li dela mt bom)
C.S.: vou anotar
Camille: eu imagino..o q me tem salvo a vida nos ultimos anos sao os livros
Camille: Emma Riverola - Cartas desde la ausencia - (guerra civil espanhola, romance epistolar, devorei entre madrid e rio)
C.S.: lês muitos romances?
Camille: tento...
Camille: Antonio Iturbe - Días de sal (ainda nao comecei)
C.S.: eu passo a vida a ler, gosto de fazer crítica literária como quem faz crochet
Camille: 1964, después de Cristo y antes de perder el autobús (algo que envolve Opus Dei e Franco dos ultimos anos)
C.S.: mas agora estou embrennhada no maneirismo e estou a adorar
Camille: ahahahhahahha eu bem vejo isso no blog....amei essa tua frase
C.S.: aliás encontro muito maneirismo nos nossos dias
Camille: vou colocar no meu blog, vou fazer o post para isso... para ti... para nós
Camille: o maneirismo é inerente às sociedades, nao foi só um e stilo de época... vi isso em algum lugar

Depois de alguns acontecimentos recentes, acho que deveríamos todos ser mais maneiristas, e mais sinceros e menos protegidos. Eu decidi recentemente que vou mandar às favas o zelo pela imagem construída. A vida parece curta ao olhar para os meus velhos e para os que ainda estão tentando ser felizes. Estou na bronca com a vida, mas a notícia boa é que já não me importo tanto com as datas e as promessas que não consegui cumprir. Assumo-me como um ser que tantas vezes não deu certo, mas que conseguiu dar certo com amigos e amigas. Finalmente cheguei no ponto de entender a frase do Ferreira Gullar, há tanto tempo decorada: Viver é estar no mundo, às vezes na tona, às vezes no fundo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de abril


Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto. (...) À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte.
José Luis Peixoto

Quanto sangue é/foi preciso para preencher o vermelho da bandeira? Sangue antigo, de Alcácer Quibir, do Cabo das Tormentas, de Ourique ou Aljubarrota; sangue novo, no Terreiro do Paço, na Guiné, em Angola, Moçambique ou em Timor.

Feliz mais um Abril!
A todos que o fizeram, aos que não o fizeram, aos que o desejaram, aos que não o desejaram, aos que ainda esperam.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ovis aries

Pois é, achei que já não havia o que dizer no meio do trabalho, da dengue e do descaso. Ponho-me a passear, pois hoje decretei que era folga da companhia e que, ao chegar em casa, o máximo que faria seria um lanche, o resto já está feito e se não está, fica por fazer que não serei euzinha a tomar a iniciativa.

Pois, vamos ao passeio e encontro a Catarina. Ca-ta-ri-na... é mesmo nome de ovelha, não acham. Pois é. Lembrei-me que sou uma e que gosto de todas, embora meu pai quase me leve às lágrimas quando começa a lembrar como morrem as pobrezinhas, com lágrimas no cantinho dos olhos e sem um gemido. Mas eu sou das tresmalhadas, juro que não morro assim. Ai não, que eu não me calo. E aí, tou mais pra fama do carneiro e do signo. E das marradas. É o que dizem. Vai ver estão certos.

O fato é que por acaso, ou não, ultrapasso e muito os dedos das duas mãos se me ponho a contar qtos carneiros conheço. Quase me enchem a agenda inteira. Não dá muito jeito na hora de comprar presentes, mas que é divertido, lá isso é. Fica sempre aquela sensação de que, afinal, vivemos mesmo em bandos, ainda que metaforicamente, somos bons carneirinhos, de rebanho, ainda que aos berros. Sempre aos berros.


PS:Ovelha negra é um termo utilizado para classificar algo ou alguém como diferente, como fora dos padrões.

Como a grande maioria das ovelhas são brancas e claras, quando há uma alteração genética e nasce uma ovelha negra, ela é considerada absolutamente diferente das demais. Daí utilizou-se a regra para classificar os diferentes.