quinta-feira, 10 de julho de 2008

Resposta

Joca,

Tive que fazer um post, apesar de estar atrasadíssima para o trabalho, pois o blog não quer publicar meu comentário ao teu comentário e eu, quando começo numa discussão que considero importante, sou que nem anta quando foge do predador, podem os galhos magoar meu lombinho, que eu continuo sempre em frente.

Então, vamos nós.

Perdoem, mas estou literalmente sem tempo para responder adequadamente aos comentários, mas ainda vou faze-lo. Agora, só um comentário sobre este teu último, Joca.

A citaçào do Oswald, cujo texto eu conheço bem, está ligada justamente à aceitação do registro falado, o que na época em que ele escreveu não acontecia.

Havia muito mais pressão das classes dominantes para que se falasse o correto, o conforme a gramática, e no caso, a gramática ainda era muito influenciada pela norma portuguesa. Depois veio a NGB e tantas outras coisas.

Não se pode comparar este acordo ortográfico do raiar do século XXI com o que escreveram poetas no início do século XX. O olhar das pessoas tem que se dirigir a um fato muito concreto, contra toda literatura e bandeiras idealistas, se não oferecermos aos sem recursos a possibilidade de letramento sem custo ou a baixo custo, continuaremos tendo elites que escrevem lindamente e vão continuar protestando contra regimes que oprimem quem não sabe ler e e o/a impedem de se tornar um cidadão independente e respeitado em uma sociedade baseda na língua escrita, sob qualquer forma.

E eu digo ler e escrever de uma forma bastante sofisticada, como a que nos permite aos dois estarmos aqui discutindo por escrito, usando como canal páginas de decodificação bastante sofisticada, que envolvem, além de letramento em língua portuguesa, também letramento digital.

Letramento digital supõe identificação de instruções e informações "escritas" dispostas de forma bem peculiar nas telas/ecrans de um computador que também tem um custo muito elevado para essas populações de que falei. Populações essas que não têm, na sua maioria, letramento digital suficiente (ou de todo) para fazer o que estamos fazendo agora.

Assim, melhor começar do início. Escola - o que pressupõe livros - e educação para quem é excluído justamente porque só domina o registro falado.

Beijos a ti a todos

NB: Para compreender o que motiva este post, leiam os comentários do post anterior.

14 comentários:

Joca disse...

Lòri:

Hum... a Anta é animal ferozíssimo. E se meter com a mesma em seu habitat, é por demais perigoso. Nem mesmo a Onça Parda, predador-mor de nossas florestas, se arrisca a tanto! Longe de mim a idéia, pois, de querer cutucá-la com vara curta, muito menos a pena! Nada de bulir com a amazona que há em ti!...

Outro dia, no programa Roda Viva, da TV Cultura, ouvi o prof. José Miguel Wisnick dizer que “...muito do que este país precisa para minimamente avançar como povo e Nação depende da capacidade da maioria de sua juventude poder ler, escrever e compreender um parágrafo corretamente...” Veja, Lóri: não falamos d’Os Sermões, do Pe. Vieira ou de dissecar Os Cantos de Camões, de compreender Homero ou Joyce; falamos de escrever (ou ler) claramente sobre o aumento do feijão ou do petróleo. Falta à muitos – a grande maioria - a mera capacidade de expressão ou compreensão, que os especialista chamam de “analfabetos funcionais.”

A discussão que evoco em torno da reforma ortográfica é puramente referente à práxis: funcionará, de fato, de acordo com o previsto tecnicamente? Ou se ficará sujeito às velhas práticas, como desde a chegada da Corte, onde o acesso aos bens/serviços dependia sempre de ser amigo do amigo do Rei?
Enfim: a reforma ortográfica vai facilitar o acesso aos livros, á Educação? Vai baratear os custos? Vai diminuir a influência das máfias editoriais? Vai facilitar o acesso de novos autores ao fechado clube dos paradidáticos, onde “ninguém entra e ninguém sai? Vai tornar mais eficiente o ensino nas nossas escolas fundamentais – aqui e além mar?

Enfim, caríssima, se a reforma intervir de modo decisivo em algumas dessas questões, só temos é que abraçar a causa; caso contrário, continuo mesmo pensando se não é mesmo muito barulho por nada... Ou quase. Desculpe abusar de seus precioso minutos, porém, isso é por pouco: és a Senhora do Tempo!

Lóri disse...

Ai, Joca, e eu que nem sabia que aquele peludo mamífero rolicinho era assim feroz. Não foi a essa característica que eu quis recorrer, mas sim à da obstinação que foi o que me ficou das minhas escassas empreitadas no Mundo Animal e no Discovery Channel.

Não te desculpes por tomares o meu tempo, o tempo existe para ser tomado, se ele vai ser valorizado é com cada qual. Parece que já virou uma patologia eu estar sempre me desculpando pela falta de tempo, acho q tenho de tratar disso na terapia.

Se eu fiz o post é pq achei que tomas temas relevantes. Por ora, falo apenas de uma parte das questões que levantas que são várias e todas importantes.

Olha, eu acho que, no Brasil, a reforma não faz muita onda, para os nativos, tb por causa da questão famosíssima dos analfabetos e dos analfabetos funcionais. Para quem só domina o falar e o popular, não faz muita diferença o modo como se escreve.

Acho que a reforma vai fazer muita diferença nos países lusófonos da Africa e, a longo prazo, se houver vontade política e editorial, fará para os nossos nativos, que terão acesso facilitado à literatura dos outros países. Ou não. Os resultados dependem da política e dos donos do dinheiro, pensem e façam os técnicos o que pensarem e fizerem.

É isso... não sou portadora de boas novas, mas ainda assim persisto, como a anta rolicinha entre os galhos a ferir-lhe o lombinho.

Semana que vem tenho novidades lindas q experimentei hoje cedo. Agora tenho de fazer uma malinha, mas é por 3 dias apenas. E ainda trabalho.

BeiJOCAs

Joca disse...

É, Lóri, o peludo rolicinho faz estragos, quando acuado. Os xavantes têm grande respeito por ela, a Anta, por coragem e ferocidade.

Parece que os termos da reforma não são lá muito conhecidos além daqueles diretamente envolvidos, como voce.
Tuas palavras me fazem pensar que a reforma pode favorecer, sim, a integração entre povos tão diferentes entre si, apesar da língua comum. Temo, entretanto, as questões políticas, outros interesses alheios ao que nos é caro, bem sabes do que falo... Acho complicado, por exemplo, a questão dos direitos autorais, a distribuição - seria possível pensar num tipo de Mercado Comum entre Paises de Lingua Portuguesa? Deliro, talvez, mas de delírios e alucinações também se vive, talvez vislumbrando um futuro alhures: livros, filmes, CDs, tudo circulando livrmente!
Quem sabe não teremos livros de Mia Couto ou Lobo Antunes nas nossas bancas de jornais, a preços populares? CDs do Zeca ou do Julio Pereira? E nos países lusófonos, os nossos artistas e escritores, principalmente aqueles sem espaço na "grande mídia"? Veremos!

Por ora, que a viagem lhe faça bem, como ocorre com as viagens em geral! E nos traga sempre boas novas!

Beijos!

Rosa dos Ventos disse...

Não quero atiçar a discussão mas acho que não tiveram em conta os PALOP...

Abraço

Joca disse...

Rosa dos ventos:

Certamente Lóri saberá falar com autoridade no que se refere aos PALOPs, como técnica que é. Aliás, ela me ajudou a compreender que o acordo pode ser bastante benéfico aos países menos dotados econômica e tecnologicamente, pois um presumível barateamento lhes facilitaria o acesso aos bens culturais, consequentemente educacionais. Espero que ela esteja certa. Veremos....

Rosa dos Ventos disse...

Eu queria dizer que não tiveram em conta os vários registos linguísticos dos PALOPs...
Claro que o acordo vai ser facilitador no sentido que referes.

Abraço

Lóri disse...

Sim,Rosa,

A questão é que o acordo só leva em conta o registro escrito e, nesse caso, só há dois registros escritos no portugu~es, normatizados, a norma portuguesa e a norma brasileira.

Qto aos falares há um número quase incontável, tanto no brasil, como em Portugal, como nos diferentes países africanos, mas, felizmente, e também numa demonstração de bom senso,ninguémpensou em unificar a modalidade falada do português. Isso, além de um atentado á individualidae e á identidade cultural, é impossível.

Abraços de Paraty!

Joca disse...

...acho que é por tudo isso - os falares e "escreveres" distintos, característicos de cada lugar - que temo a reforma ortográfica acabar sendo um certo tipo de "letra morta" sendo todo o esforço em vão. Por mim, como leitor brasileiro comum, o argumento decisivo a favor é a questão do barateamento das obras... Mas, seria realmente necessário???
Novmente falando como leitor comum, digo que o que gosto mesmo é do colorido, da possibilidade de descobertas...
"Antropologicamente", acho que a unificação não leva a nada, muito pelo contrário: acho mesmo que a ortografia induz criptograficamente a gravação de certos "sons" ou coisa parecida, como o acento circunflexo, a trema, etc.. Mas isso é assunto para linguistas. Vou deixar de viajar!... Afinal, quem está viajando é a Lòri!

Que o sol de Paraty ilumine sempre e muito mais seu sorriso!

bjs

Lóri disse...

Joca,

eu NÃO quero estar certa, aliás eu quero é ser feliz, o que nem sempre é possível. Eu não tenho autoridade alguma para falar sobre o acordo, pois, como já disse no primeiro post sobre este assunto, eu estava deixando a coiaa correr solta, pois não estou diretamente implicada na discussão, profissionalmente, pelo menos, em termos imediatos.

Estou envolvida, profissionalmente, apenas porque ensino a língua e como qq outro usuário escolarizado e que com ela trabalha (como tradutores, escritores, professores de língua materna, dicionaristas, autores de livros didáticos e paradidáticos, etc) tenho obrigaçao de saber como fica essa história.

Li alguns artigos sobre a questão e quando digo que sou técnica, sou técnica de Lingüística e entendo alguns fatos relativos à língua e a seu uso, conheço razões que, às vezes, escapam a profissionais de outras áreas, mas isso não faz de mim especialista no acordo. Pra ser bem sincera, acho que ninguém o será, nem mesmo seus idealizadores.

Em resposta ao teu último coment, se o acordo vai virar letra morta ou vai ajudar a melhorar o acesso à escolaridade de algumas populações falantes de Português, nós só saberemos com o tempo. Tudo depende da atitude de vários grupos envolvidos no processo, direta ou indiretamente.

Quanto à tua questão sobre ser ou nao necessário o acordo para o barateamento dos livros (e não só) parece que quem te pode responder seriam os editores que, como outras categorias, pensam sobretudo nospróprios bolsos e parecem precisar de força de lei e de concorrência para tomarem decisões que poderiam ser tomadas apenas por bom senso. Acontece que o mundo capitalista e neo-liberal é muito mais complexo do que sonha nossa vã filosofia.

Não te aborreças comigo, eu sou apenas uma moça latino-americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda aqui mesmo do Rio de Janeiro. Ainda que meus pais tenham vindo do interior, de Portugal.

O sol de Paraty tava lindo, como eu espero tb tenha sido no Sampa. E agora o trabalho me espera.

Beijos e boa semana para todos nós

Joca disse...

Lóri,
Jamais me aborreço contigo, muito pelo contrário!
Na verdade, eu acho uma pena voce não estar envolvida diretamente no assunto, pois tens grande clareza e sensibilidade e todos percebemos o grande amor que demonstras pelas Belas Letras. Por mim voce estaria na Comissão de Frente, pois mesmo discordando pontualmente de algumas coisas, confio qu eestaria em boas mãos, pois tratas bem a nossa querida lingua-mãe.
Quanto a mim, espero que com ou sem reforma possamos ter acesso a mais autores e que o acesso dos autores à distribuição seja justa e democrática. É o que deseja esse paulistano por adoção vindo do interior, sem parentes importantes e, pior!, devo dinheiro no banco!

mas, tudo vale a pena! Hoje vi em video dois filmes interessantes, que pretendo rever: A Grande Viagem, de Ismael Ferroukhi e Bob Dylan - No Diretion Home, de Scorsese. O cinema ainda é capaz de milagres!

beijos! Boa semana pra ti!

Pitanga Doce disse...

Lóri vai ao Pitanga. Hoje faz um ano e eu nem percebi.

inominável disse...

eu quero que o acordo me passe ao lado... eu quero que o acordo continue a ser o desacordo que é... eu só quero que o acordo me continue a passar ao lado... porque este acordo é, sobretudo, um desacordo (em muitos aspectos e a ortografia nem é a principal)...

PS- viste o meu novo espaço? é dedicado a tu sabes quem... BEIJOS

Lóri disse...

Querida Menina sem nome,

SIm, vi teu espaço fofíssimo. E tu, viste o mimo q deixei aqui, em 4 de julho, para ti e o Bárbaro?

js,

Isabel Victor disse...

Gostei imenso de passar por aqui ...

Encontrei-te no espaço cinema Lauro António e segui-te, cara Lóri


Fiquei.


Atenta à discussão. Crente na " plataforma da língua" ! :))


Sigo o teu raciocínio com imenso interesse

e ...


partilho a tua paixão por Clarice Lispector.



iv*